A morte de João Severo.
Em
um domingo de janeiro, o dia amanhecera quente na Maria Preta, o céu sem
nenhuma nuvem anunciava um dia quente, corria o ano de 1881 e algo parecia
estranho para as negras da cozinha. Todos os dias, o primeiro da família a
levantar era o velho João, seguido logo no encalço pelo filho, mas naquele dia
a negra Margarida notou que o senhor não havia levantado, pensou que estivesse
na varanda olhando a quentura do dia que se anunciava, foi até a porta da
frente e a encontrou fechada, com a trava de pau ferro ainda no lugar,
estranhou qualquer coisa e foi acordar a sinhá que sempre acordava depois do
marido e do filho, os negros já conversavam em frente à senzala, nas cantigas
de coco que animavam a escravatura, Severo chegou-se para a cozinha enquanto a
negra Margarida batia na porta do quarto, três ou quatro batidas e logo
escutou-se o reboliço da sinhá que sacudia o marido deitado sem sucesso, já
estava rígido o velho João Severo quando deram pela sua morte.
Foi
um choque para todos da fazenda e da vizinhança a morte do senhor de escravos,
Manoel Lins do São Domingos foi avisado por um escravo e selou seu cavalo para ir
prestar homenagem ao vizinho que não era muito dado a galanteios, mas sabia-se
ser homem de trabalho e honesto. Chegou-se já com sol alto, o corpo já era
velado na sala da casa grande, notou a presença de outros fazendeiros da
região, Antônio Anastácio, da Serra Velha, Zé Quirino, do Mundo Novo, João
Dantas, do João Barbosa, todos vieram prestar as últimas homenagens ao amigo.
O
clima mórbido de um velório foi logo sentido pelo visitante. Tardou até se
recolher a um canto mais confortável, longe do destaque dado aos
recém-chegados. Apertou com respeito a mão dos conhecidos prostrados nas
laterais do grupo que acompanhava o velório, posicionou-se de forma que pudesse
fazer uma leitura dos presentes e identificar os familiares. Logo viu o jovem
Severo Correia que conversava com alguns homens mais ao lado enquanto o caixão
e a viúva estavam centralizados na sala. Aproximou-se de Severo e apertando a
sua mão com firmeza, disse-lhe:
-
Meus sentimentos, meu jovem. Sou Manoel Lins do São Domingos, você não me
conhece, mas comprei muito gado na mão de seu pai, era homem direito e
trabalhador. Deus o coloque em um bom lugar.
Cabisbaixo,
mas sem pranto aparente, Severo agradece as palavras do homem que até então
desconhecia e o convida a sentar-se com os presentes. Sentia-se incomodado com
a situação, não sabia bem o que fazer. Se pudesse -pensava – estaria em outro
lugar, talvez sozinho com seus pensamentos, aproveitando o tempo para fazer
algo de prático. Mas conteve seus impulsos e ficou por ali.
Mesmo
de cabeça baixa, observava o ambiente. De um lado sua mãe em um pranto de dá
dor, era acudida pelas escravas, parecia perder o ar a pobre velha. Severo
pôs-se firme, ofereceu café aos convidados e aguardou que torcendo para que
tudo aquilo acabasse logo, sabia que seu pai o estimava, sempre fez tudo por
ele, fora obediente e buscou ajuda-lo na lida diária e aquilo o conformava,
afinal, nada mais poderia ser feito, de que valia tanto choro?
Manoel
Lins era um tipo atarracado, de estatura média e corpulento. Calçava uma bota
simples de cano curto, o chapéu esverdeado que trazia nas mãos quando chegou-se
próximo à casa em luto, parecia novo, como se nunca tivesse sido usado. Seu
rosto não era fácil de ser esquecido. Com seus sessenta anos, era ainda um
homem forte, de pisar firme. Cultivava um vívido bigode preto ponteado de uns poucos
fios brancos, sua característica principal era uma numerosa sobrancelha que era
notada a distância, não havia separação entre ambas, um traço grosseiro a
cobrir-lhe os olhos vívidos.
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