Garantir a "mistura"
Os
filhos dos caboclos livres tinham na caça de preás, passarinhos, tatus e
lagartos como o “teiu” e o cameleão uma das atividades mais praticadas. Caçar era
um misto de entretenimento e necessidade de garantir a “mistura”. Assim, iniciavam
cedo na atividade e iam até a fase adulta. Caçador, era uma profissão.
Entre
os jovens homens havia uma espécie de competição: “Fulano é bom na bala”,
dizia-se do rapaz que tinha boa mira e sempre voltava pra casa com algo no “bogó”.
Os meninos com menos destreza nessa atividade eram mal vistos, chamavam-nos de “mole”,
de “viadinho”. Era um código de honra rudimentar, não haviam muita tolerância
para aquele que se mostrasse inapto à sobrevivência na dura terra onde pisavam.
Haviam
famílias cuja mãe levantava cedo e cozinhava uma panela de feijão no fogo a
lenha, a grande panela que levava apenas o próprio grão, água e alguns poucos
temperos, era a única comida garantida pelo estoque das famílias mais pobres,
juntava-se à farinha e, com sorte, a alguma caça abatida no mesmo dia.
Uma
vez cozido o feijão, um ou mais membros da família saia para o mato, verificar
uma armadilha ou caçar com o badogue. O instrumento rudimentar composto por uma
forquilha retirada no mato, geralmente de pau ferro, pau de rato ou mesmo de
velande. O “soro” espécie de borracha cumprida, era comprado dos tropeiros.
As
armadilhas eram basicamente o laço, a arapuca e a não menos antiga zabumba, um
alçapão posicionado em trilhas de animais como o preá e o mocó. Todos confeccionados
a partir de materiais coletados no próprio ambiente. Próximo à macambira viviam
os preás, um pequeno roedor muito adaptado ao clima seco, era apreciado pelos
moradores locais. Nos meses de colheita do milho, se multiplicavam aos montes,
proporcionando uma certa reserva de carne para algumas famílias. Nos meses de abundância,
mata-se o máximo de preás possível e secava-se a carne salgada ao sol, carne
que era comida nos meses subsequentes, a carne era seca nos giraus feitos geralmente
no “eitão” das casas e constantemente vigiados por conta de urubus e gatos
furtivos.
Entre
as pássaras, os mais apreciados eram a juriti, a nambu e a codorno, mais
abundantes eram as rolinhas, que voavam em grandes nuvens e caíam aos montes
nas arapucas armadas em beiras de aceiros, nos últimos meses do ano, poderiam
aparecer as pombas de seca, pareciam rolinhas, mas muito maiores e com muito
mais carne, em alguns anos, apareciam feito pragas, voando em nuvens enormes,
despertando as superstições sertanejas, que diziam ser prenúncio de ano ruim.
A
arapuca era talvez a armadilha para pássaros mais utilizada. Oriunda de
tradições milenares aprendidas com os indígenas, consistia numa estrutura de
galhos retos amarrados por um barbante empilhados um em cima do outro de modo a
formar uma caixa cuja base é larga e o topo estreito, lembrando uma pirâmide. Armava-se
a armadilha em locais sabidamente frequentado por pássaros, armar uma arapuca
requeria habilidade, gravetos finos e flexíveis permitiam a montagem de um
gatilho sensível, acionado com o leve pisar de uma ave de pequeno porte. Para atrair
os pássaros, era colocado como isca milho pisado no pilão ou mesmo triturado
com duas pedras. A armadilha era muito utilizada pois não era necessário
vigiar, pois seu gatilho era acionado com o pisar das aves, fazendo descer a
estrutura que prendia os animais.
Já
a zabumba era muito mais utilizada para pegar preás e mocós, consistia num
alçapão de madeira a cobrir um buraco cavado em uma trilha deixada pelos
animais como uma estrada, cavava-se nesses locais um buraco nas dimensões da
estrutura de madeira, quando o animal passava o alçapão o fazia cair dentro do
buraco ficando preso até que o caçador retornasse para aprisionar o roedor que
se fingia de morto como um artifício de sobrevivência, mas era sumariamente
morto para matar a fome do homem e de sua família.
Perigo
era encontrar uma jararaca ou uma cascavel que, desavisada em suas próprias
caçadas, caía na armadilha, acidentes eram comuns pois alguns sertanejos mais
afoitos enfiavam a mão no buraco onde acreditava estar o cobiçado preá expondo
a mão à venenosa víbora furiosa por estar aprisionada.
Algumas
outras técnicas de armadilha ainda eram utilizadas, o laço e o visgo de jaca. Este
último, espalhado deliberadamente em um galho para aprisionar os pássaros que
ali pousavam.
Para
caçar rolinha com o badogue era necessário alguma preparação, antes, ia-se aos
tanques mais próximos buscar barro para fazer a munição da caçada, bolas de
barros eram moldadas por mãos habilidosas e eram postas para secar ao sol, depois
de algumas horas atingiam a dureza necessária para passarem à “sama” do badogue
e viajar rápidas como o vento tirando a vida das pobres criatura inocentes.
Mas
era necessário, mesmo com muito gado ao redor, ao sertanejo pobre não era
acessível, aqueles que criavam cabras, ovelhas e galinhas poderiam prover com
mais facilidade a proteína da carne em suas mesas, para os que não tinham esse
privilégio, restava caçar. Assim, não se tinha muito critério, a lavandeira, pássaro
branco e preto de aspecto frágil era uma exceção, dizia-se que esse pássaro havia
lavado a roupa de Nossa Senhora, por isso não podia ser morta, nem vista como
caça. Para o restante dos animais, não havia semelhante regalia, uma opção eram
os cágados d’água que ofereciam as suas cabeças para fora da água nos tanques, expostas
à mira do badogue, quando se conseguia acertar o alvo, era preciso pular na
água e pegar o animal rapidamente pois este não morria com o balaço, apenas
ficava atordoado e deveria ser pego antes que fugisse. Tinha uma carne dura,
que precisava ser bem cozida e sua mordida era temida.
Os
peixes também eram uma opção, caboje, traíras e piabas eram outra opção a ser
considerada pelos habitantes do ermo e seco sertão. Nas propriedades maiores
era proibido pescadores de fora, alguns proprietários até reservavam um dos
tanques para servir de criadouro de peixe, sempre vigiado por conta dos ladrões
de peixes que agiam na calada da noite.
Para
muitos sertanejos mais pobres, era assim que se garantia a carne do dia a dia,
a comida geralmente fugia do sertanejo quando podia e a vida dura do homem e da
mulher do sertão era aliviada quando a sorte lhes sorria.
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