O Touro da Maria Preta.

 



A escravatura da Maria Preta ganhava fama em toda a região. Os negros de Severo produziam muito bem, como se dizia na época “davam o que tinham” e a fazenda era notoriamente bem cuidada. Os pastos cuidadosamente divididos abrigavam o gado em épocas diferentes do ano, na parte da propriedade destinada ao plantio do milho não se via mato entre os eitos, o milharal crescia ao sabor das chuvas nos anos de boa invernada, a lavoura de algodão, um produto agrícola secundário em toda a área do sertão que dividia a Bahia e Sergipe, vingava com as mãos habilidosas dos negros especializados naquela cultura.

Mas todo esse zelo tinha um preço alto que recaia quase que completamente sobre o dorso dos escravos da fazenda. Sua mão de obra era predominantemente cativa, com exceção de uns poucos caboclos alojados nas terras de Severo Correia.

Para dar conta do serviço, o feitor Felipe deveria ter braço firme, ordem do patrão! Na Maria Preta não se tolerava negro preguiçoso, o dia começava cedo e terminava tarde, por volta das cinco da manhã as negras da cozinha iniciavam o processamento do alimento da escravatura, a ração variava entre mingau de milho, feijão com carne seca, farinha com rapadura e feijão com farinha. Nos meses de colheita se consumia o milho assado ou cozido, tirado diretamente do milharal.

Feita a alimentação inicial todos se dirigiam para os seus locais de trabalho, quem cuidava do gado se dirigia aos pastos, os lavradores buscavam o roçado e os escravos domésticos cuidavam dos afazeres da casa. Antes do meio dia levava-se a comida para todos os pontos da fazenda onde se tinha negro em serviço, o almoço era feito à sombra das árvores e logo voltava-se ao trabalho. O expediente só terminava anoitecendo, era hora de limpar as ferramentas, guardar tudo e seguir para a senzala para o merecido descanso.

Toda essa rotina, contudo, não se aplicava a um único escravo denominado Sérgio. O negro alto, de ombros largos, de pernas cumpridas e canelas finas fora comprado ainda rapazote, Severo pagou bom preço pelo escravo na feira do Bom Conselho, era natural de Inhambupe e fora adquirido com o intuito de virar reprodutor da fazenda do sagaz Severo Correia.

Na época, a Maria Preta contava com 32 cativos, 17 mulheres, 12 em idade fértil, 4 crianças entre seis e nove anos e 11 homens feitos. A chegada de Sérgio muito desagradou os homens do plantel de escravos de Severo, sobretudo aqueles que tinham parceiras fixas. Sabiam que com a chegada do negro reprodutor, todas as mulheres em idade de ter menino deveriam se deitar com ele, a fim de terem filhos cujas características físicas fossem as mais valorizadas pelos donos de escravos.

O negro Raimundo, amancebado com Dora e pai de duas das crianças da fazenda protestou ao sinhozinho. Raimundo era homem de fibra, com aproximadamente 35 anos, era trabalhador e especialista na lida com gado, passou a vida inteira no ofício de vaqueiro, curava bicheira, barriga inchada, tirava leite, matava boi e curtia couro. Com todas essas habilidades e sem nunca ter ido para o tronco sentiu-se habilitado a conversar com o fazendeiro e pedir pela sua companheira, mas o resultado não poderia ser mais desastroso. Severo teve um de seus rompantes de raiva, mandou levar o negro para o tronco e no dia seguinte o vendeu para a fazenda Olaria, perto das campinas, ao Coronel Aristides Borges. Todos ficaram chocados com a atitude do sinhozinho, Raimundo era querido de todos, saiu aos prantos, amarrado com as mãos para trás, à sela do cavalo do feitor.

A partir daquele episódio, não houve mais contestação, as negras da fazenda, resignadas, faziam revezamento na tenda do negro Sérgio, chorando ou sorrindo, todas elas deveriam se deitar com o reprodutor em um ciclo somente interrompido quando uma delas desconfiava estar grávida. Quando as regras atrasavam as regras, como se dizia na época, a negra Míriam era encarregada de observar a companheira a fim de atestar se era gravidez ou muganga de escrava.

As grávidas eram afastadas de Sérgio, passavam a gravidez inteira trabalhando e só eram dispensadas do serviço nos dias de parir, para passar o resguardo e logo em seguida voltar a frequentar a tenda dos amores do cativeiro.

Algumas das escravas até gostavam da rotina das noites na tenda de Sérgio, com o tempo, ele foi conquistando o amor de algumas delas, embora boa parte das negras da Maria Preta odiasse aquela situação e aquele negro arrogante que judiava das mulheres das quais não se afeiçoava. Para essas a vida se tornara ainda mais difícil, especialmente nos dias de trabalho duro no eito, quando aguardavam ansiosas pelo descanso da noite, mas precisavam cumprir mais uma tarefa, de longe a mais invasiva e dolorosa delas, deitar-se com um homem que odiavam e que não fazia questão de agradá-las.

Com pouco tempo, Sergio foi multiplicando a escravatura da Maria Preta, seus filhos foram se espalhando pela fazenda e ele ficou famoso na região, alguns fazendeiros até enviavam suas negras para serem fecundadas pelo Toro da Maria Preta, como ficou conhecido em toda a região.

Os outros escravos nutriam por ele um misto de ódio e inveja, enquanto todos precisavam cumprir dura rotina de trabalho na fazenda, Sérgio fazia apenas tarefas leves. Limitava-se a consertar algum arreio dos animais, separar sementes para o plantio e atividades afins. Sua alimentação também era diferenciada, pouco se distinguia da comida da gente da casa grande. Por vezes fazia chacotas com os outros escravizados, debochava dos pobres coitados com as marcas do trabalho duro e dos castigos constantes na propriedade.

A mulher de Raimundo, o escravo que foi vendido por reclamar da atuação de Sérgio, já tinha um filho com o Touro da Maria Preta, era mãe de três crianças agora. Ressentia-se pelo que aconteceu com o marido, um homem bom, calmo e trabalhador, açoitado feito um animal por ordem do fazendeiro de coração de pedra. Seu lamento era maior quando lembrava de Raimundo indo embora amarrado, deixando para trás ela e os filhos. Nas noites com Sérgio não conseguia sentir prazer, cumpria o que para ela tornou-se um ritual de tortura. Saia da senzala e ia para a tenda, deitava-se na esteira e esperava que Sérgio fizesse a sua parte, não esboçava qualquer reação. Ele sabia que aquilo para ela era um suplício e se aproveitava da situação para castigar a negra, arrumava situações no meio do coito que sabidamente a desagradava, dava ordens como um feitor e se servia da escrava com sadismo.

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