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Mostrando postagens de junho, 2023

Missa no Bom Conselho

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  Líbia estava grávida do primeiro filho, uma menina ainda! Diziam as negras da cozinha, acostumadas as parições, filhos de pais diferentes, concebidos mesmo no chão da senzala ou no mato com algum caboclo da lida do mato. Mas Dona Líbia era diferente, tão faceira, com um cabelo agalegado e olhos claros, corpinho de menina, diziam. E a barriga foi crescendo, Severo não tinha tempo para paparicar a esposa, não se dava ao luxo de ficar um dia sequer em casa, mesmo aos domingos saia para ver o gado, montava em sua burra preta, passava horas e horas percorrendo as terras, quando chegava era sempre aquele rompante com os empregados e os escravos, gritava e gesticulava, raros eram os dias em que negro não ia pro tronco pra pagar por serviço mal feito. E a Maria Preta ia ganhando fama de judiar dos negros, o pé de caixão ficava conhecido em toda a região por ser mal assombrado, diziam que ouviam-se gritos a noite, um tropeiro contava em Bom Conselho que, certa vez, passando por lá, sent...

Negro fugido.

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  No pasto, a lida seguia como sempre, quando uma novilha ganhou o mato na direção da serra do Mocó, Severo mandou o negro Sinval para o serviço, a espora chiou no vazio da égua que levantava poeira por entre as árvores retorcidas da caatinga, Sinval era jovem, mas negro de coragem, era nascido na Maria Preta e sobrinho da negra Margarida. O sol já baixava por detrás da serra quando Severo se mostrou impaciente com a demora de Sinval, ordenou que outros dois cabras seguissem para a serra que já se banhava da pretude da noite vindoura. A boca da noite os dois voltaram com uma notícia que encheu de fúria o fazendeiro, o negro Sinval havia deixado o rastro da novilha e ganhado o mundo, a novilha estava para os lados da Boa Vista e o rastro da égua do negro pendiam para as bandas de Sergipe, na direção oposta. Severo não dormiria naquela noite, aquele negro lhe pagaria pela ousadia, não toleraria aquilo, seria mau exemplo para os seus negros. O canalha deveria ter ido em direção à La...

Paisagem sertaneja

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  Quando chegaram à Maria Preta, foi preciso muita habilidade para instalar a família e as quinze cabeças de gado que vieram junto ao comboio de quatro carros de boi. O negro Macário, que fora escravo de seu pai e o vira criança, se encarregava de controlar a escravatura nova. Era negro de confiança, uma fera para trabalhar. Como todo começo tudo foi muito difícil, dormiam em tendas de tecidos embaixo de uma frondosa quixabeira que lhes servia de casa, fizeram um curral improvisado para o gado e trataram de coletar na mata virgem as varas para erguer a casa, a ideia inicial era fazer uma residência modesta para os primeiros anos e conforme avançassem na produção da fazenda, aumentar o tamanho da residência, construir a senzala e um curral adequado. Nas duas primeiras semanas trabalhava-se até a exaustão, João Severo era já homem de mais de 40 anos, mas tinha tino para o trabalho duro, tirava da escravatura o que ela podia dar. No sábado arreava seu cavalo e ia até a feira do Bo...

A morte de João Severo.

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  Em um domingo de janeiro, o dia amanhecera quente na Maria Preta, o céu sem nenhuma nuvem anunciava um dia quente, corria o ano de 1881 e algo parecia estranho para as negras da cozinha. Todos os dias, o primeiro da família a levantar era o velho João, seguido logo no encalço pelo filho, mas naquele dia a negra Margarida notou que o senhor não havia levantado, pensou que estivesse na varanda olhando a quentura do dia que se anunciava, foi até a porta da frente e a encontrou fechada, com a trava de pau ferro ainda no lugar, estranhou qualquer coisa e foi acordar a sinhá que sempre acordava depois do marido e do filho, os negros já conversavam em frente à senzala, nas cantigas de coco que animavam a escravatura, Severo chegou-se para a cozinha enquanto a negra Margarida batia na porta do quarto, três ou quatro batidas e logo escutou-se o reboliço da sinhá que sacudia o marido deitado sem sucesso, já estava rígido o velho João Severo quando deram pela sua morte. Foi um choque para...

A arrogância de Severo Correia

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  As terras de Severo Correia faziam divisa com a fazenda Barriguda, de Inácio Barbosa, o marco natural da divisão entre as duas propriedades era o riacho que corria por ali. Era um córrego de pequenas proporções que só guardava água nos momentos de cheia, a maior parte do ano era apenas uma cicatriz na terra seca que serpenteava entre as duas propriedades. O curso sinuoso do riacho já havia sido motivo de rusga entre o pai de Severo e o velho Inácio, por conta da constante mudança de percurso do rio causadas pelas enxurdas. No verão de 1877 as nuvens de chuva se anunciavam vindas de Sergipe, os relâmpagos ao longe clarearam durante noites e mais noites, anunciando a trovoada que não tardaria a chegar. Em uma tarde de dezembro os ventos fortes já traziam cheiro de terra molhada, com pouco tempo, os primeiros pingos grossos de chuva começavam a assentar a poeira do chão e logo a chuva forte marcava presença. A enxurrada não tardara a chegar, da varanda da casa todos miravam o ...

O Touro da Maria Preta.

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  A escravatura da Maria Preta ganhava fama em toda a região. Os negros de Severo produziam muito bem, como se dizia na época “davam o que tinham” e a fazenda era notoriamente bem cuidada. Os pastos cuidadosamente divididos abrigavam o gado em épocas diferentes do ano, na parte da propriedade destinada ao plantio do milho não se via mato entre os eitos, o milharal crescia ao sabor das chuvas nos anos de boa invernada, a lavoura de algodão, um produto agrícola secundário em toda a área do sertão que dividia a Bahia e Sergipe, vingava com as mãos habilidosas dos negros especializados naquela cultura. Mas todo esse zelo tinha um preço alto que recaia quase que completamente sobre o dorso dos escravos da fazenda. Sua mão de obra era predominantemente cativa, com exceção de uns poucos caboclos alojados nas terras de Severo Correia. Para dar conta do serviço, o feitor Felipe deveria ter braço firme, ordem do patrão! Na Maria Preta não se tolerava negro preguiçoso, o dia começava ce...