Missa no Bom Conselho
Líbia
estava grávida do primeiro filho, uma menina ainda! Diziam as negras da
cozinha, acostumadas as parições, filhos de pais diferentes, concebidos mesmo
no chão da senzala ou no mato com algum caboclo da lida do mato. Mas Dona Líbia
era diferente, tão faceira, com um cabelo agalegado e olhos claros, corpinho de
menina, diziam.
E
a barriga foi crescendo, Severo não tinha tempo para paparicar a esposa, não se
dava ao luxo de ficar um dia sequer em casa, mesmo aos domingos saia para ver o
gado, montava em sua burra preta, passava horas e horas percorrendo as terras,
quando chegava era sempre aquele rompante com os empregados e os escravos,
gritava e gesticulava, raros eram os dias em que negro não ia pro tronco pra
pagar por serviço mal feito. E a Maria Preta ia ganhando fama de judiar dos
negros, o pé de caixão ficava conhecido em toda a região por ser mal
assombrado, diziam que ouviam-se gritos a noite, um tropeiro contava em Bom Conselho
que, certa vez, passando por lá, sentiu um arrepio na espinha, gritos de
horrores, cantos de coco no meio da noite, seria aquilo coisa do capeta,
resultado das judiações que se faziam dos negros naquele local. Líbia ouvia
histórias dos parentes que a visitavam, sentia uma raiva profunda de tudo
aquilo, tudo seria intriga com seu marido, Severo tinha aquele jeito bruto, mas
não era bicho coisa nenhuma, dizia.
Em
um domingo a família saía da Maria preta em uma carroça rumo ao Bom Conselho,
assistiriam a missa do Padre Vicente Martins, almoçariam na casa do tio
Raimundo. Severo não era de missa, mas cedera a visitar o famoso padre, diziam
que era dado a beber, ele, Severo, não se dava ao luxo do álcool como os
cunhados da Lagoa da Volta, não era homem pra gastar dinheiro com besteira,
cachaça em suas terras só contrabandeada pela negralhada, quando eram descobertos,
o cipó de boi cantava.
A
igreja do Bom Conselho era uma pequena capela com uma torre que se via de
longe, em cima de um morro à sua frente o cemitério recebia os defuntos dali,
era um alto acessado por uma escada cavada no barro ceco, feito pelos capuchinhos.
Severo, a esposa e uma criança de colo chegavam com sol alto, o próprio
fazendeiro guiava a charrete, destoava dos grandes fazendeiros locais que
tinham negros boleeiros, não com Severo, negros seus eram pro trabalho, pro
banguê, pra plantar capim e cuidar do gado e do roçado.
Era
dia de festa no Bom Conselho, os grandes estavam por ali, o Barão de Jeremoabo
fazia pouso em seu sobrado ao lado da igreja. Não sei pra que tanto luxo!
recriminava Severo. O barão fora amigo do seu pai, embora mais jovem, era filho
do comendador João Dantas, corria na boca da cabroeira que o homem tinha mais
terras do que o imperador.
O
casarão do Barão era uma construção imponente, um sobrado com dois andares,
piso de madeira e móveis de cedro. A enorme mesa da sala de jantar
impressionava pelo requinte, as negras vestidas com uma roupa igual, um oratório
com os santos da casa.
Antes
de chegar à igreja, deu pouso na casa do Barão, tinham um negócio a tratar,
Severo desejava arrendar a São Domingos do fidalgo e não perderia a
oportunidade de fechar negócio. A casa cheia de gente e o fazendeiro entra meio
sem jeito e vai cumprimentar o anfitrião que o recebe com cortesia. O negócio é
rápido, o Barão já sabia dos intensões de Severo com a São Domingos, era um bom
negócio pra ele, no pior dos casos Severo desmataria a área e limparia a velha
fonte há muito sem utilidade.
Na
igreja, Dona Líbia perde a companhia do marido que fica sempre do lado de fora
templo, conversando baixo com um e com outro. Sua camisa de linho amarelada se
diferenciava dos outros homens, um chapéu gasto e uma botina sem lustre faziam
de Severo um fazendeiro bronco, iletrado, um estranho em meio àqueles homens
bem vestidos e perfumados para as festividades na igreja.
Líbia
percebia ali que o marido era mesmo diferente, homens elegantes com chapéu e
roupa bonita estavam na igreja, tão diferente de Severo, com a barba grande e o
cheiro de fumo de rolo. Os homens do Bom Conselho eram diferentes, pensava ela,
haviam os maltrapilhos, mas deveriam ser gente mais pobre, os fazendeiros não,
esses se vestiam bem, falavam de política, o Barão parecia um rei aos olhos de
Líbia, com aqueles óculos redondos, terno de casimira, colete e sapatos que
brilhavam como o sol.
Era
um mundo diferente para a moça criada na Lagoa da Volta, nunca tinha pisado na
vila do Bom Conselho, as festas religiosas aconteciam sempre na própria fazenda
dos pais, já tinha visto o padre Vicente, em um domingo foi ao casamento de uma
tia na Serradinha celebrado pelo padre. Em outra ocasião o religioso visitou a
casa de seus pais, estava de viagem, iria para um casamento em queimadas,
montado em um cavalo manso, acompanhado por um assistente. Teve boa impressão
do vigário, embora andasse quase sempre com um cheiro forte exalado da cachaça
que traziam consigo escondida em um bornal.
Os
pagamentos de promessa para os moradores da Lagoa da Volta se davam com a
duríssima subida da serra do capitão, onde os capuchinhos haviam erguido uma
capela para as missões, essas subidas feitas através de estreito caminho, pelo
qual dois homens não conseguiam caminhar lado a lado, eram especialmente penosas,
mas necessária aos olhos dos fiéis, um suplício exigido para a remissão dos
pecados e o agradecimento de graças alcançadas. Seu pai havia deixado lá uma
perna de pau, em agradecimento à cura de um mal que lhe afligia uma das pernas
após a queda de um cavalo, sofreu por meses com uma ferida que não sarava e
deixava escapar um líquido amarelo e fétido. Por ocasião dessa enfermidade do pai,
Líbia pediu a Nossa Senhora que o curasse. Mas
tudo lá era diferente do Bom Conselho, nunca vira tantas casas juntas, três ou
quatro ruas se formavam em torno da igreja, uma calçada muito alta circulava
todo o templo, um barracão coberto de pindobas abrigava um comércio, a sombra
do barracão era palco para negociações, cabras, vacas, feijão e milho, tudo era
comprado e vendido por ali. As vendas de carne, farinha, rapadura e outros
produtos regionais, gerava um movimento e um barulho que impressionava a esposa
de Severo. Embaixo da cobertura um frenesi de gente anunciava uma feira que se
interrompia logo que a missa começava.
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