Negro fugido.
No
pasto, a lida seguia como sempre, quando uma novilha ganhou o mato na direção
da serra do Mocó, Severo mandou o negro Sinval para o serviço, a espora chiou
no vazio da égua que levantava poeira por entre as árvores retorcidas da
caatinga, Sinval era jovem, mas negro de coragem, era nascido na Maria Preta e sobrinho
da negra Margarida. O sol já baixava por detrás da serra quando Severo se
mostrou impaciente com a demora de Sinval, ordenou que outros dois cabras
seguissem para a serra que já se banhava da pretude da noite vindoura. A boca da noite os dois voltaram com uma notícia que encheu de
fúria o fazendeiro, o negro Sinval havia deixado o rastro da novilha e ganhado o mundo, a novilha estava para os lados da Boa Vista e o rastro da égua do
negro pendiam para as bandas de Sergipe, na direção oposta.
Severo
não dormiria naquela noite, aquele negro lhe pagaria pela ousadia, não
toleraria aquilo, seria mau exemplo para os seus negros. O canalha deveria ter
ido em direção à Lagarto, não conhecia nada sertão adentro, antes de raiar o
dia levaria dois negros com ele e iria para Sergipe atras da sua propriedade.
Não havia capitães do mato naquelas bandas, cada fazendeiro precisava dar conta
das fugas de seus negros ou contratar um caçador de negro fugido em Canabrava
ou Lagarto.
Choviam as chuvas de maio e Severo em cima do seu cavalo na estrada pra Sergipe, era um caminho estreito até perto do Coité, de lá pegaria a estrada real para esplanada e depois para lagarto, viagem terrível aquela, doía-lhe as ancas e a cada passo sua raiva do negro fugido aumentava, vestia calça de couro de boi e sobre os ombros tinha uma grande peça de couro curtido que fazia as vezes de um rústico sobretudo, na cabeça o chapéu completava o traje que o protegia da chuva. Caminho a dentro, as patas dos animais espanavam água das poças do chão, o traje do fazendeiro escorria água pelas pontas, tão insistente quanto a chuva fina daquele dia. Os acompanhantes não vestiam mais que um jaleco de couto e calça de pano de saco de algodão.
Em Coité foi se informar em uma venda ao lado
da capela, deu as características do negro e da égua na qual montava e não
soube de notícia nenhuma, resolveu ficar por ali mais algum tempo, não queria
perder o rastro de seu escravo, próximo do meio dia, um homem de chapéu de
couro o apresentou a um caçador que tinha topado com um negro com aquelas
características, tinha se ferido numa moita de Carqueijo e estava abrigado na
casa de um certo Benício, no caminho para bebedouro.
Apressou-se
em sair o quanto antes, agradeceu aos dois homens e seguiu para o destino
indicado, se fosse o negro - pensava ele - o levaria amarrado puxando a cavalo
e o couro de boi iria cantar no lombo do atrevido quando chegasse na fazenda,
não poderia deixar aquilo passar – pensava enquanto apertava os dentes. O que
iriam pensar dele, um fazendeiro que deixa seus negros fugir sem dar-lhes o
castigo merecido? Isso com ele não aconteceria, negro em sua mão não daria uma
de sabido para ficar impune. Aqueles pensamentos o acompanhavam na medida em
que seguiam a pista outrora adquirida, fazia planos, pensava em como castigaria
o fujão, pensava no que a gente da Maria Preta estava pensando daquela
situação, decerto o teriam na conta de frouxo, um molengão sem pulso. Mas ele
daria o troco, Severo Correia de Souza não nascera para levar fama de fraco,
aquele negro iria ser o exemplo.
Ao
chegar na fazenda do homem por nome de Benício, Severo se apresentou e disse
que procurava por um escravo fugido, falava naquele momento com uma senhora de
lenço na cabeça, era uma velha miúda com um olho cego que recebera os três
homens montados à cavalo na porteira da sua casa. Era a mulher do tal Benício que
respondia aos forasteiros. A velha mostrava-se incomodada com aqueles homens
parados no seu terreiro.
-
Senhora, eu só quero saber se meu negro andou por aqui, não precisa se aperrear,
foi dizendo Severo de cima do seu cavalo ao notar que a velha estava assustada.
Foi
quando um dos acompanhantes avistou o negro que saia sorrateiro pelo fundo da
casa, tinha um pano amarrado na barriga e estava sem camisa.
-
Pega o homem! Gritou um deles.
E
abandonaram a velha a falar sozinha na ânsia de capturar o fugido. Não houve
luta, o negro tinha um talho na barriga e caíra ao chão implorando pela vida.
Amarraram o cabra pelas mãos e saíram puxando com o cavalo, a égua que o negro
montava quando fugiu se perdera no maio do mato.
De
longe ouvia-se o choro do negro arrastando os pés descalços pelo chão de areia,
os cavalos em passada segura não diminuíam o ritmo, o suor molhava o corpo do
escravo e o pano branco amarrado na barriga já era todo vermelho do sangue do
ferimento que se abrira, o sol já ia longe quando o grupo resolveu parar para
dormir à beira do caminho, embaixo de um grande umbuzeiro, um dos negros
acendia uma fogueira enquanto Severo se encarregava pessoalmente de amarrar o
fugitivo, mãos e pés, não permitiria que fugisse outra vez, poderia morrer no
caminho que levaria a carcaça dele arrastando, mas mostraria aos seus escravos
o que acontece com quem resolve fugir de Severo Correia de Souza.
A
noite corria silenciosa, quebrada apenas pelos gemidos do Negro Sinval, uma
raiz de umbuzeiro era exprimida para fazer render a pouca água que tinham
agora, mas não estavam longe da Maria Preta. O negro gemia para um lado e dizia
que não sentia as pernas, deram-lhe um pouco de água para suportar a viagem de
volta. Com os primeiros raios de sol o grupo levantou acampamento e partiu de
volta, o negro debilitado aqui e acolá caia com a cara no chão, tingindo do
branco da areia a cara preta do sol cujo sangue escorria.
Já
era sol alto quando entraram no terreiro da Maria Preta, todos os escravos
vieram ver a cena lastimável que se apresentava em frente à casa grande, a
Negra Margarida quando viu o sobrinho naquela situação caiu com todo o corpo
enorme no chão em desmaio. As negras choravam e pediam para não judiar mais do
infeliz.
-
Amarrem esse cachorro lá no pé de caixão. Ordenou Severo enquanto seu burro
arredio dava voltas em torno de si mesmo.
Os
homens que acompanharam o fazendeiro na viagem arrastaram Sinval para a árvore
imponente que ficava há uns trezentos metros da casa. O fugitivo não se colocava
em pé, só gemia e pedia água. Severo mandou que o pendurassem de uma forma que
as costas ficassem expostas porque aquele negro não escaparia do chicote. Todos
ficaram chocados com a maldade contra aquele homem que era agora um farrapo. O
negro foi pendurado pelos braços e castigado no cipó de boi, ninguém suportava
mais ver aquilo.
Sinval
fora colocado no chão, ali mesmo embaixo da árvore que abrigara o seu suplício
e deixado para passar a noite. No dia seguinte os olhos do negro estavam
vidrados, não suportara a surra e morrera na relva, amarrado como uma fera. A
história correu por aquele trecho do sertão, a região da Serra do Mocó tinha
fazendeiro que matava negro na peia, que não tinha dó de escravo. Os
fazendeiros vizinhos não aprovavam o fato, mas diziam que negro deveria ser
tratado com rigor para não se acostumar na fuga.
Na
Maria Preta o clima mudou desde aquele dia, era uma fazenda com somente um
branco e alguns caboclos na lida do gado, o restante dos moradores eram
escravos. Não se ouvia mais gargalhadas das negras na cozinha, as conversas
dentro de casa eram raras e aos sussurros, enchia-se a casa grande de um clima
de medo e um qualquer coisa de raiva do senhor que dera no negro até a morte. Os
escravos pensavam que ele sabia que Sinval não suportaria a noite inteira
ferido daquele jeito, tinham ali um senhor cruel, que matava negro no cipó de
boi.
Severo
sentira que a convivência com os seus escravos mudara a partir daquele dia, não
faria nada para mudar aquilo. Negro só mesmo na peia. Era um homem contente
naquele momento, todos na fazenda precisavam saber que com ele era no bruto, os
que se metessem a besta veriam o cipó de boi cantar debaixo do pé de caixão.
Depois
da sova no negro Sinval, aquela árvore, pé de caixão, criaria uma aura de
mistério, os negros evitavam passar por ali, é como se vissem o pobre negro
amarrado pelas mãos, com os pés quase sem tocar a chão, lavado de sangue,
gemendo de dor com aquele corte horrível na barriga. Ninguém se sentava mais
ali para descansar à sombra, o mato alto só era aparado quando a voz grossa de
Severo ordenava, se arrepiavam todos ao sentir a sombra daquela árvore nas
costas, uma sombra fria e sinistra a abreviar o calor do sol. Pé de caixão...
dava até arrepio na escravatura da Maria Preta ouvir falar naquilo, a fazenda
tinha agora aquele mal assombro, aquela região por onde ninguém passava de bom
grado.
Para
Severo aquilo era besteira, coisa de negro com suas mandigas. No início, pouco
se levava a sério o malossombro daquela árvore, mas as histórias passaram a
ganhar corpo, dizia-se ouvir vozes em sussurros assustadores, que a sombra
daquela árvore era fria como gelo e que os negros obrigados a limpar o mato sob
sua sombra adoeciam e ficavam malucos. Na feira do Bom Conselho falavam sobre o
assunto, diziam que um dos negros que trabalharam embaixo da sombra da árvore
maldita ficara maluco, conversava com fantasmas, vivia a falar sozinho,
brigando com sombras.
Comentários
Postar um comentário