Paisagem sertaneja

 


Quando chegaram à Maria Preta, foi preciso muita habilidade para instalar a família e as quinze cabeças de gado que vieram junto ao comboio de quatro carros de boi. O negro Macário, que fora escravo de seu pai e o vira criança, se encarregava de controlar a escravatura nova. Era negro de confiança, uma fera para trabalhar.

Como todo começo tudo foi muito difícil, dormiam em tendas de tecidos embaixo de uma frondosa quixabeira que lhes servia de casa, fizeram um curral improvisado para o gado e trataram de coletar na mata virgem as varas para erguer a casa, a ideia inicial era fazer uma residência modesta para os primeiros anos e conforme avançassem na produção da fazenda, aumentar o tamanho da residência, construir a senzala e um curral adequado.

Nas duas primeiras semanas trabalhava-se até a exaustão, João Severo era já homem de mais de 40 anos, mas tinha tino para o trabalho duro, tirava da escravatura o que ela podia dar. No sábado arreava seu cavalo e ia até a feira do Bom Conselho comprar carne do sol para a ração diária. Durante toda a semana o trabalho era duro, praticamente não havia vizinhos por ali e a família e seus negros é que se encarregavam de a tudo construir.

Aquelas terras eram pouco habitadas, apenas alguns fazendeiros residiam nas redondezas. Por esse tempo, a Barriguda, a Laje da Boa Vista, a Paus Pretos, a Serra Velha, A Cutia e a Volta, a Mundo Novo e outras poucas propriedades eram as fazendas produtivas da área.

Com três semanas após a chagada subia a cumeeira da modesta casa de taipa, uma braúna ainda jovem fora cortada para formar a peça, lapidada pelas mãos habilidosas do negro Macário na lâmina do machado. E tudo parecia correr bem para a família de João Severo, alegrava o seu coração a imagem da casa sendo coberta com as telhas moldadas nas coxas dos seus negros, era para ele o sonha de tocar a sua vida na nova terra, deixara irmão em Sergipe, mas não queria nada de ninguém, tudo seu deveria ser conquistado com o suor do seu rosto.

Muita coisa ainda precisava ser construída naquele solo promissor. Em frente à casa construída inicialmente, mais ou menos meia légua ao sul, erguia-se a serra do mocó, que servia de ponto de referência para os viajantes que trafegavam pelas veredas que cortavam aquela área. Era avistada à longa distância e recebera esse nome devido a grande quantidade de Mocó, um roedor de pequeno porte, que por ali vivi a servir de presa para caçadores e viajantes famintos.

As poucas estradas que cortavam aquela região do sertão foram abertas pelos funcionários da casa da torre, linhagem de Garcia D’ávila. Por ali o pisoteio do gado é que abrandava o mato, formando pequenas veredas que, com o uso, formavam estradas que eram aproveitadas por moradores locais e tropeiros viajantes.

Eram estradas perigosas, propícias às emboscadas de bandoleiros que viviam do saque e da extorsão, não hesitando em matar quem se metesse em seu caminho. As mortes por essa área eram tão frequentes e corriqueiras que a Vila de Bom Conselho fora erguida em cima do antigo cemitério da Cacunéia, lugar de emboscada e de reiterados latrocínios, de cujas vítimas eram ali mesmo enterradas sem qualquer liturgia.

Em frente à Maria Preta passava uma dessas estradas, por vezes enormes boiadas por ali passavam, de longas distâncias podia-se ver a poeira levantada pelo gado e ouvia-se o icônico aboio dos vaqueiros tocando a boiada.

Assistir àquela passagem era um entretenimento para todos, era difícil não parar para observar aquela cena, aquele instante de movimentação a quebrar o silêncio do sertão. O pisar dos animais ficava cada vez mais alto, a poeira mais forte, com pouco tempo estava aquela imensa coluna atravessando a frente da casa de João Severo, os vaqueiros cumprimentavam os espectadores à beira da estrada e seguiam seu caminho, eram longas rotas, das áreas de pastagem no sertão de dentro ao litoral onde se consumiria a preciosa carne de boi.

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