A arrogância de Severo Correia

 



As terras de Severo Correia faziam divisa com a fazenda Barriguda, de Inácio Barbosa, o marco natural da divisão entre as duas propriedades era o riacho que corria por ali. Era um córrego de pequenas proporções que só guardava água nos momentos de cheia, a maior parte do ano era apenas uma cicatriz na terra seca que serpenteava entre as duas propriedades.

O curso sinuoso do riacho já havia sido motivo de rusga entre o pai de Severo e o velho Inácio, por conta da constante mudança de percurso do rio causadas pelas enxurdas.

No verão de 1877 as nuvens de chuva se anunciavam vindas de Sergipe, os relâmpagos ao longe clarearam durante noites e mais noites, anunciando a trovoada que não tardaria a chegar. Em uma tarde de dezembro os ventos fortes já traziam cheiro de terra molhada, com pouco tempo, os primeiros pingos grossos de chuva começavam a assentar a poeira do chão e logo a chuva forte marcava presença.

A enxurrada não tardara a chegar, da varanda da casa todos miravam o rio aguardando a cabeça d’água que desciam com força. Inicialmente mais parecia um lodo grosso, carregando galhos e troncos de árvores arrancadas ao longo do caminho. Em pouco tempo o rio corria poderoso, os baixões roncavam com a força da água que desbarrancava o rio com força.

Era uma chuva forte, porém rápida que com pouco tempo começava a afinar, mas não sem antes deixar varjadas as aguadas da Maria Preta e propriedades vizinhas. Com a chuva fina, era possível comtemplar a grandeza das águas, logo todos deixavam o abrigo da casa grande e iam ver o rio cheio, com a correnteza que aos poucos se abrandava.

Quando as águas baixaram, ficou claro que a enxurrada havia mudado consideravelmente o curso do rio e, por consequência, os limites da Maria Preta e também da Barriguda. Aquela mudança provocou uma situação delicada entre os dois fazendeiros e fez com que os vizinhos batessem boca por conta da terra que consideravam ter perdido com a mudança do rio. A intriga, contudo, não gerou graves consequências entre o pai de Severo e o vizinho e com o tempo foi-se esquecendo da história.

Quando Severo assumiu o comando da fazenda buscou resolver a situação antiga à sua maneira. Ordenou que seus escravos cavassem o rio corrigindo-o de maneira vantajosa para si, onde havia uma curva que adentrava suas terras fez uma reta e com a obra ganhou espaço considerável de terra em detrimento da propriedade vizinha.

Quando a história chegou aos ouvidos do velho Inácio o deixou revoltado. Como poderia aquele rapazote ser tão insolente? Via grande atrevimento no fato de Severo mexer com uma questão tão antiga, algo já superado entre ele o seu falecido pai. Não deixaria por aquilo mesmo, era homem de respeito e jamais tomara nada de ninguém.

No dia seguinte selou sua burra e foi ao Bom Conselho, procuraria Chiquinho Vieira para tentar resolver aquela situação, mas a conversa foi para ele desanimadora, o coronel não interferiria naquilo, tinha, segundo ele, o empecilho de estar passando por perseguições políticas por conta da ascensão do partido liberal ao poder, era agora oposição e precisaria se poupar de pequenas rusgas.

O velho Inácio retornou para a sua casa contrariado, era homem de mais setenta anos, jamais tinha passado por situação tão embaraçosa. Falaria com Severo, pediria explicações ao atrevido. O caminho para a Barriguda passava impreterivelmente pela Maria Preta. Passaria por lá e teria uma conversa com Severo.

A viagem entre Bom Conselho e o Mocó era uma boa puxada de três léguas no lombo de um animal. O velho Inácio sentia no corpo as dores do caminho, no fim da tarde avistou a sede da Maria Preta, era fim de expediente, a gado já estava recolhido ao curral e a escravaria já se juntava em frene à senzala e os vaqueiros já tiravam os arreios dos animais.

O velho Inácio foi chegando mais perto e da porteira perguntou pelo proprietário. Severo não esperou que convidassem o vizinho a entrar e foi caminhando em sua direção. O velho Inácio em cima da sua burra, prostado em frente a cancela pelo lado de fora e Severo do lado de dentro da propriedade.

 

- Boa tarde, seu Severo.

- Boa tarde, respondeu.

- Eu vim aqui para conversar com o senhor, saber por qual motivo fez aquela obra no riacho, o senhor sabe que eu perdi bom pedaço de terra com aquela intervenção.

Severo ouvia e fitava o vizinho com seus olhos profundos, não demonstrava raiva nem arrependimento. Ouviu a queixa do homem, bem mais velho que ele, com aspecto de cansado, que falava segurando o chapéu apoiado à sela do animal.

Inácio tinha uma fala respeitosa, embora indignada, falava serenamente sem levantar a voz, não desrespeitaria um homem dentro da sua propriedade, mesmo que soubesse estar com a razão.

Mas a sua compostura não seria copiada por Severo que explodiu contra o vizinho como se falasse com um dos seus escravos.

- Cale a boca, velho safado! Pensa que eu não sei que já foi ao Bom Conselho fazer queixa de mim? A terra é minha e faço dela o que bem entender, não mexi no que é seu, ajeitei o rio para resolver uma questão dos tempos do velho meu pai, pensa que não sei que você roubou aquela terra dele? Se tem um ladrão aqui é você! E ainda tem a coragem de vir bater em minha porta, pois passe daqui antes que eu dê em você com o reio de bater nos pretos.

O Velho Inácio ouvia tudo aquilo com indignação, não estava ali para ofender ninguém, queria apenas o que era dele. Com os gritos de Severo teve que se cuidar para não cair da burra que se assustara com todo aquele barulho, deu dois passos para trás e por pouco não fez com que o velho se desequilibrasse.

O povo da fazenda fez multidão para ver aquilo tudo, não era comum um homem branco dizer aquelas palavras a outro branco. Alguns até se riam da situação, mas o sentimento predominante era de espanto.

O Velho Inácio nada respondeu, riscou de espora a grande burra preta e seguiu seu caminho em direção à sua casa.

Com pouco tempo a história se espalhou, Severo Correia havia desrespeitado a cerca da Barriguda e ainda tinha humilhado o velho Inácio. As pessoas da região ouviam aquilo com espanto. Onde já se via tratar um homem direito como Inácio Barbosa naqueles termos? Aquilo não se fazia. Severo gozava de respeito em toda a região, mas aquilo foi para os fazendeiros da redondeza um insulto imperdoável.

O episódio correu a região como rastilho de pólvora, na feira do Bom Conselho o comentário entre as barracas era esse e para piorar, correu a história de que o velho Inácio teria adoecido com a humilhação, era um velho sem filho homem que lhe fizesse justiça, aquilo não estava certo.

O velho Inácio estava, de fato, adoecido, o tropeiro Baltazar contava de fazenda em fazenda a situação triste da Barriguda. A velha sinhá chorava de preocupação com o marido que não falava, não tinha ânimo para cuidar dos afazeres da fazenda. Foi acometido de uma tristeza profunda, a barba branca que lhe crescia no rosto dava ao velho fazendeiro um aspecto ainda mais abatido.

Com pouco mais de trinta dias do episódio, dois carros de boi estacionavam em frente à sede da Barriguda para pegar os pertences do velho Inácio, não poderia mais conviver por ali diante de tamanha vergonha. Vendera a fazenda a Joaquim Borges e foi morar nas matas do Coité, comprou uma propriedade um pouco menor por lá e nunca mais pisou nas terras do Mocó nem no Bom Conselho.

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