Severo Correia quer casar.

 



2Severo já era homem feito, tinha vinte e três anos quando se engraçou com Líbia, uma jovem de bons modos, filha de um fazendeiro da Lagoa da Volta, uma fazenda próxima, na direção das Queimadas. O povo dos Correia, como eram conhecidos os membros da família Correia daquela região, era gente simples, mas gente direita. Há muitos anos tinham comprado aquela terra dos Dantas e ali viviam também de criar gado e plantar milho, feijão e algodão. Criaram os filhos na lida da roça, com as dificuldades de uma fazenda no sertão da Bahia.

Severo e Líbia se conheceram no Caruru da Lagoa da Volta, era festa afamada na região. O fazendeiro da Maria Preta era homem solteiro e embora tivesse fama de dar em negros, era visto como homem direito, de palavra firme, falava pouco e tinha poucos amigos, com esse jeito rude, conquistou o respeito de todos.

O velho Pedro Correia tinha ali aquela menina, era moça caseira, tinha ainda 12 anos quando chegou à sua casa aquele homem de semblante sério, alto, magro e imponente. Respeitosamente Severo foi recebido na sala da antiga casa da família, na frente do velho Pedro, anunciou que estava ali na qualidade de pretendente à única filha solteira da família e gostaria de fazer dela a sua mulher.

No quarto da frente a moça ouviu tudo escondido e seu coração se enchera de alegria quando seu pai deu a autorização para o matrimônio. Ela se casaria com aquele homem de quem o povo tanto falava, mas pensava que aquilo tudo seria intriga desse povo do Mocó, um homem com aquela aparência, com aquela boniteza a faria feliz, se casaria com ele e iria morar na Maria Preta, era perto, podia visitar seus pais toda quinzena.

O casamento foi uma grande festa na Lagoa da Volta, a casa do velho Pedro Correia estava movimentada desde de manhã. Embaixo da gameleira havia gente na matança de um porco, as galinhas do terreiro morriam aos montes nas mãos das negras da cozinha, foi chegando o povo com um garrote para matar, com pouco tempo já tiravam o couro do bicho para curtir e as peças de carne chegam à cozinha. As negras naquele dia trabalhavam de ficar cansadas, suavam à beira fogo, tinha gente improvisando fogo embaixo das árvores ao redor da casa. Os preparativos levaram o dia todo e ao cair da noite o sanfoneiro fazia a festa, a fogueira na frente da casa iluminava os convidados com o festejar. Por volta da meia noite, Severo anunciou aos convidados e aos sogros que regressaria naquela mesma noite para sua fazenda, tinha muito serviço no dia seguinte e a tarefas não esperavam, trouxera uma égua selada para levar a noiva e uns cacarecos que ela quisesse levar naquele momento, no dia seguinte mandaria uma carroça para buscar o resto. Houve espanto com aquela decisão, mas todos sabiam que Severo não era homem de festa, conheciam o temperamento fechado do fazendeiro. Líbia não se opôs, abraçou a mãe com os olhos lacrimejando e subiu na égua para acompanhar o marido, seriam duas léguas de estrada, logo estaria na nova casa ao lado dele. Uma vida nova a aguardava.

No dia seguinte acordou sozinha na cama do seu novo quarto, o marido levantara com os primeiros raios de sol e já andava pelos pastos dando ordem aos negros. Acordou com o gado que saia do curral em direção ao pasto e com os comandos dos vaqueiros com a boiada. Na cozinha a velha Margarida aguardava a sinhá com um pirão de capão.

Logo as negras da cozinha perceberam que a sinhá tinha um temperamento doce, falava manso e tinha ainda um sorriso infantil. Era comum que as moças de família se casassem ainda muito cedo, mas havia em dona Líbia um falar de anjo, um jeito amável de uma alma boa, entrelaçava as mãos à frente do corpo para conversar com os outros, um misto de timidez e ternura, seus olhos vívidos a tudo notavam e passava para os empregados uma mensagem de paz. Mal chegou, e Líbia, uma jovem de pouco mais de doze anos, já conquistara a simpatia de todos. Margarida coloca o prato na grande mesa, mulher de primeira noite deveria comer pirão, ainda mais uma menina tão moça. Teria a sinhazinha o poder de mudar o temperamento bruto de seu Severo? Será que toda aquela doçura daria cabo daquela ruindade e daqueles rompantes de raiva? A negras cochichavam na cozinha enquanto Líbia explorava a nova casa.

Pouco tinha conversado com o seu marido até o dia do casamento, eram quase desconhecidos um para o outro. Severo vinha chegando montado numa burra, o chapéu de abas largas cobria-lhe a cabeça protegendo do sol, vestia roupas sujas, não se podia diferenciar o fazendeiro dos caboclos que lidavam com o gado junto com os negros, sua barba não fora aparada nem mesmo para o casamento, era preta como a noite e cobria-lhe quase todo o rosto.

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