Severo Correia quer casar.
Severo e Líbia se conheceram
no Caruru da Lagoa da Volta, era festa afamada na região. O fazendeiro da Maria
Preta era homem solteiro e embora tivesse fama de dar em negros, era visto como
homem direito, de palavra firme, falava pouco e tinha poucos amigos, com esse
jeito rude, conquistou o respeito de todos.
O velho Pedro Correia tinha
ali aquela menina, era moça caseira, tinha ainda 12 anos quando chegou à sua
casa aquele homem de semblante sério, alto, magro e imponente. Respeitosamente
Severo foi recebido na sala da antiga casa da família, na frente do velho
Pedro, anunciou que estava ali na qualidade de pretendente à única filha
solteira da família e gostaria de fazer dela a sua mulher.
No quarto da frente a moça
ouviu tudo escondido e seu coração se enchera de alegria quando seu pai deu a
autorização para o matrimônio. Ela se casaria com aquele homem de quem o povo
tanto falava, mas pensava que aquilo tudo seria intriga desse povo do Mocó, um
homem com aquela aparência, com aquela boniteza a faria feliz, se casaria com
ele e iria morar na Maria Preta, era perto, podia visitar seus pais toda
quinzena.
O casamento foi uma grande
festa na Lagoa da Volta, a casa do velho Pedro Correia estava movimentada desde
de manhã. Embaixo da gameleira havia gente na matança de um porco, as galinhas
do terreiro morriam aos montes nas mãos das negras da cozinha, foi chegando o
povo com um garrote para matar, com pouco tempo já tiravam o couro do bicho
para curtir e as peças de carne chegam à cozinha. As negras naquele dia
trabalhavam de ficar cansadas, suavam à beira fogo, tinha gente improvisando
fogo embaixo das árvores ao redor da casa. Os preparativos levaram o dia todo e
ao cair da noite o sanfoneiro fazia a festa, a fogueira na frente da casa
iluminava os convidados com o festejar. Por volta da meia noite, Severo
anunciou aos convidados e aos sogros que regressaria naquela mesma noite para
sua fazenda, tinha muito serviço no dia seguinte e a tarefas não esperavam,
trouxera uma égua selada para levar a noiva e uns cacarecos que ela quisesse
levar naquele momento, no dia seguinte mandaria uma carroça para buscar o
resto. Houve espanto com aquela decisão, mas todos sabiam que Severo não era
homem de festa, conheciam o temperamento fechado do fazendeiro. Líbia não se
opôs, abraçou a mãe com os olhos lacrimejando e subiu na égua para acompanhar o
marido, seriam duas léguas de estrada, logo estaria na nova casa ao lado dele.
Uma vida nova a aguardava.
No dia seguinte acordou
sozinha na cama do seu novo quarto, o marido levantara com os primeiros raios
de sol e já andava pelos pastos dando ordem aos negros. Acordou com o gado que
saia do curral em direção ao pasto e com os comandos dos vaqueiros com a
boiada. Na cozinha a velha Margarida aguardava a sinhá com um pirão de capão.
Logo as negras da cozinha
perceberam que a sinhá tinha um temperamento doce, falava manso e tinha ainda
um sorriso infantil. Era comum que as moças de família se casassem ainda muito
cedo, mas havia em dona Líbia um falar de anjo, um jeito amável de uma alma boa,
entrelaçava as mãos à frente do corpo para conversar com os outros, um misto de
timidez e ternura, seus olhos vívidos a tudo notavam e passava para os
empregados uma mensagem de paz. Mal chegou, e Líbia, uma jovem de pouco mais de
doze anos, já conquistara a simpatia de todos. Margarida coloca o prato na
grande mesa, mulher de primeira noite deveria comer pirão, ainda mais uma
menina tão moça. Teria a sinhazinha o poder de mudar o temperamento bruto de
seu Severo? Será que toda aquela doçura daria cabo daquela ruindade e daqueles
rompantes de raiva? A negras cochichavam na cozinha enquanto Líbia explorava a
nova casa.
Pouco tinha conversado com o
seu marido até o dia do casamento, eram quase desconhecidos um para o outro.
Severo vinha chegando montado numa burra, o chapéu de abas largas cobria-lhe a
cabeça protegendo do sol, vestia roupas sujas, não se podia diferenciar o
fazendeiro dos caboclos que lidavam com o gado junto com os negros, sua barba não
fora aparada nem mesmo para o casamento, era preta como a noite e cobria-lhe
quase todo o rosto.

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